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Investigado por fraudes no INSS, Careca tentou fechar contratos milionários na área da saúde

Polícia Federal apura se recursos desviados de aposentadorias foram usados para estruturar empresas e tentar vender medicamentos, testes e alimentos ao Ministério da Saúde

Apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores de um esquema bilionário de fraudes em aposentadorias e pensões do INSS, o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, tentou, sem êxito, firmar ao menos três contratos de grande valor com o Ministério da Saúde. As investidas envolveram medicamentos à base de cannabis, testes rápidos de dengue e produtos de nutrição infantil.

As tentativas ocorreram entre o fim de 2024 e o início de 2025. Embora o lobista tenha sido recebido em reunião na pasta, nenhuma compra foi efetivada pelo governo federal.

Alems

Suspeitas sob investigação da PF

As apurações fazem parte da Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025, que investiga desvios em benefícios previdenciários entre 2019 e 2024. Segundo a Polícia Federal, o prejuízo pode alcançar R$ 6,3 bilhões. Conversas obtidas em aplicativos de mensagens, analisadas pelos investigadores, indicam a atuação direta do Careca e de seus funcionários na tentativa de viabilizar negócios junto ao Ministério da Saúde.

Ao autorizar uma nova fase da operação, em dezembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça afirmou que a pasta da Saúde surgia como a "nova possível área de atuação da organização criminosa". O magistrado também determinou que a Anvisa avaliasse administrativamente "eventuais irregularidades praticadas por servidores públicos".

Uma das suspeitas é que recursos desviados das aposentadorias tenham sido usados para estruturar empresas e custear propinas com o objetivo de obter contratos públicos.

Tentativa de venda de medicamentos à base de cannabis

Uma das empresas ligadas ao lobista é a World Cannabis. Em dezembro de 2024, mensagens trocadas entre o Careca e funcionários mostram articulações em torno da revisão da resolução nº 327 da Anvisa, que trata da autorização sanitária para fabricação e importação de produtos de cannabis.

Em um dos diálogos, o lobista escreveu: "Preciso de uma reunião com vocês amanhã às 8:45h" e, em seguida, "Reunião com Berge [sic] às 10:30", em referência a Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde.

Dias antes, a equipe havia produzido uma minuta de Termo de Referência (TR) prevendo a compra de 1,2 milhão de frascos de canabidiol pelo ministério, por dispensa de licitação, direcionando a aquisição a quatro empresas, entre elas a World Cannabis. O documento não informava valores, mas, no mercado, cada frasco pode custar entre R$ 400 e R$ 900.

A negociação não avançou. Em nota, o Ministério da Saúde declarou: "O Ministério da Saúde não compra nem fornece canabidiol. O produto sequer está incorporado ao SUS. Nenhuma compra foi realizada e não existe qualquer processo em curso para sua inclusão ou oferta pelo SUS".

Articulações para fornecimento de testes de dengue

Em janeiro de 2025, as mensagens indicam que o foco do lobista passou a ser a venda de testes rápidos de dengue. Em uma troca de mensagens, após a divulgação de uma reportagem sobre o aumento de casos da doença, uma funcionária comentou: "Terreno sendo preparado".

O Careca relatou aos funcionários que esteve no Ministério da Saúde e afirmou: "Apresentei os documentos com todos os racionais e ele colocou a seguinte estratégia. Irá fazer uma agenda com secretária Ethel (SVA) para conduzir o processo!".

Assim como no caso do canabidiol, a equipe elaborou um Termo de Referência prevendo a compra sem licitação, direcionada a testes de uma fabricante chinesa. Apesar da proximidade temporal entre essas conversas e uma nota técnica da Secretaria de Vigilância em Saúde recomendando o uso dos testes, o ministério informou que os produtos já haviam sido adquiridos anteriormente, por meio de licitação vencida por outra empresa, sem vínculo com o lobista.

Sobre a reunião com o secretário-executivo, a pasta afirmou que "é papel dos gestores da pasta receber, em conformidade com as regras da administração pública, representantes de diversos setores da saúde".

Projeto de nutrição infantil também não avançou

Em outra frente, o Careca firmou parceria com uma empresa de Goiás interessada em fornecer produtos de nutrição infantil ao ministério, por meio da Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego). Um memorando de entendimentos, assinado em outubro de 2024, previa atuação consultiva do lobista no âmbito de um programa de desenvolvimento lançado pela pasta.

Segundo o Ministério da Saúde, a proposta foi analisada e rejeitada em agosto de 2025. "A documentação [da proposta] foi devidamente analisada pelos colegiados e instâncias responsáveis e reprovada", informou o órgão.

A empresa parceira afirmou que o projeto não prosperou e destacou que "não houve qualquer pagamento [ao Careca] pois o projeto não foi aprovado pelo Ministério da Saúde", acrescentando que cláusulas anticorrupção encerrariam automaticamente a relação em caso de irregularidades.
 

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