Vida e Espiritualidade 10
Viver no Espírito tem suas exigências. Não é possível medir o grau de espiritualidade de uma pessoa, mas cada pessoa deve se esforçar para crescer também na espiritualidade.
Sempre me chamou muita atenção o texto do evangelho de Lucas 2,52: “E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens”. Convém perceber a semelhança do texto que fala de São João Batista: “O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito” (Lc 1,80).
O que mais me surpreende é a noção de Lucas, tido como médico, que percebe no ser humano as dimensões de corpo – crescia em estatura; mente – em sabedoria; e transcendência – graça.
Sabemos que uma criança não se desenvolve normalmente sem se alimentar bem, sem aprender a falar no tempo certo, a caminhar e correr para brincar com os amigos. Isso são fatos visíveis. Até o crescimento em sabedoria pode ser constatado pelas avaliações periódicas na escola.
No entanto, esse desenvolvimento biológico e intelectual revelado por sinais concretos nem sempre é acompanhado de um crescimento espiritual, na graça de Deus. Assim como o desenvolvimento natural supõe boa alimentação, estudo, convivência com os pais, irmãos, colegas de escola e de diversões, o crescimento espiritual também tem suas exigências.
Certamente o primeiro encontro de uma criança com o amor de seus pais é um sorriso, um sussurro de palavras doces, um cantarolar suave para adormecer. A criança corresponde, desde os primeiros dias, com um segurar firme de seus dedinhos no dedo do pai ou da mãe. O carinho entre eles vai crescendo, acompanhando o crescimento no tamanho e na sabedoria, cada coisa a seu tempo e do seu jeito.
Assim também podemos fazer crescer a nossa amizade com Deus. O bom é quando tudo começa em casa, no colo da pai ou do pai, mas isso não quer dizer que não pode começar a qualquer tempo, com uma oração, uma bênção, uma leitura. O que importa é responder a um impulso natural da pessoa em direção a Deus, porque é essa dimensão que nos torna totalmente humanos.
O primeiro passo para um adolescente, jovem ou adulto crescer na dimensão espiritual é dispor-se a conversar com Deus, num esforço de ouvi-lo e fazer-se ouvir por Ele. Se no começo é difícil, pode-se recorrer a uma música suave, um texto bíblico, uma imagem ou pintura. Nesse campo cada religião tem os seus recursos, mas nenhuma foge da necessidade de ter uma postura sincera diante de Deus. Depois da oração mental, ajuda muito a oração vocal ou mesmo silenciosa. Para os católicos as ave-marias do terço são como uma música de fundo para desfiarmos, em cada conta do rosário, aquilo que nos vai no coração e queremos compartilhar com Deus.
Outra grande fonte de espiritualidade é a leitura da Palavra de Deus, a Bíblia, tida por muitos como a carta e amor do Pai celeste para seus filhos. Para quem está começando, convém escolher um texto dos Evangelhos. Uma visão completa da vida de Jesus se encontra em Mateus e Lucas, que tratam desde a infância até a ressurreição de Cristo. Para quem quer o Evangelho mais curto, ler Marcos é a solução para começar. João é o evangelista que já supõe a leitura dos outros textos.
Começar com um trecho curto, mastigar as palavras que vão sendo lidas, dispõem a pessoa a criar um hábito. O hábito da oração e da leitura espiritual faz crescer nesse sentido e logo quem está nesse caminho vai descobrir que só pode encontar a Deus relacionando-se bem com os irmãos.

