segunda, 15 junho 2026

Violência contra a mulher

há 10 meses

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Médico envia "morango do amor" à ex, mesmo com medida protetiva e tornozeleira

Gesto simbólico escancara falhas na proteção de mulheres vítimas de violência em Mato Grosso do Sul

Atualizado: 30/07/2025 19:41

Da redação

Em Campo Grande, um gesto que parece inofensivo: um “morango do amor” entregue pela filha, se tornou a mais recente forma de intimidação contra uma mulher sob medidas protetivas. O autor é um médico, monitorado por tornozeleira eletrônica, que mesmo proibido de se aproximar da ex-companheira, segue desafiando o sistema de justiça.

A vítima, que chamaremos de Letícia Martins (nome fictício), denunciou que o ex-marido, Henrique Duarte (nome fictício), violou novamente a ordem judicial ao enviar, por meio da filha do casal, o doce popular acompanhado de uma mensagem com forte carga emocional. O episódio ocorreu no dia 27 de julho, e soma-se a um histórico de sete anos de abusos psicológicos, patrimoniais e morais.

“Mandei um morango pra você pra mostrar que, mesmo com tudo o que você está fazendo, eu ainda desejo o melhor”, escreveu o agressor.

Segundo a defesa da vítima, o comportamento configura uma forma dissimulada de violência psicológica, usada para manipular emocionalmente e manter presença constante, mesmo à distância. O caso expõe uma grave vulnerabilidade: nem tornozeleiras, nem medidas protetivas parecem ser suficientes para conter a insistência de agressores determinados a permanecer na vida das vítimas.

Anos de controle e silenciamento

Letícia relata que o relacionamento com Henrique começou com promessas de amor, mas rapidamente evoluiu para um ciclo de dominação: restrição da vida social, dependência financeira imposta e episódios de agressão verbal e física. “Ele dizia que eu não precisava trabalhar, que era humilhante a mulher de um médico ser secretária”, conta.

Apesar de a separação ter ocorrido oficialmente em julho de 2024, os episódios de intimidação continuaram. O caso ganhou contornos mais graves após Letícia procurar ajuda e conseguir medidas protetivas, que proibiam o contato e a aproximação do ex-marido.

No entanto, de acordo com o processo, Henrique apareceu diante da casa da vítima no dia 27 de maio de 2025, logo após ser intimado sobre as restrições, exibindo o documento judicial como se fosse uma espécie de salvo-conduto — numa tentativa clara de intimidação.

Justiça opta por monitoramento eletrônico

Diante das violações, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul solicitou a prisão preventiva do agressor, com base na Lei Maria da Penha. A promotoria sustentou que Henrique, mesmo monitorado, persistia em ações abusivas e colocava a saúde mental da vítima em risco.

A juíza responsável pelo caso, no entanto, entendeu que a prisão seria uma medida excessiva naquele momento. Em decisão proferida em 30 de junho, determinou o uso de tornozeleira eletrônica por 90 dias, com proibição de aproximação inferior a 300 metros. O equipamento foi instalado em 18 de julho pela equipe da AGEPEN.

Apesar disso, a vítima segue sendo alvo de abordagens indiretas, como mensagens e recados enviados por meio da filha, o que, para especialistas, revela uma “sofisticação perversa” na conduta do agressor.

O romantismo como máscara para o abuso

A utilização de um símbolo culturalmente associado ao amor — como o “morango do amor” — agrava o impacto da ação, segundo a psicóloga forense Cláudia Bastos. “Esse tipo de gesto tem forte carga simbólica e é usado para confundir, reabrir feridas emocionais e fragilizar a vítima. É a velha tática de manipulação, agora embalada em afeto.”

A advogada de Letícia, Dra Janice Andrade, reforça: “Não estamos diante de um gesto ingênuo. Ele usa a filha como mensageira, insiste em estabelecer contato e, ainda por cima, camufla a ameaça sob a aparência de carinho.”

Números alarmantes

Em 2024, Mato Grosso do Sul registrou 35 feminicídios — crescimento de 15,7% em relação ao ano anterior. A taxa estadual foi de 2,4 assassinatos por 100 mil mulheres, uma das mais altas do país. O dado contrasta com a diminuição nos registros de agressão física: foram 2.367 casos de lesão corporal dolosa, frente a 2.837 em 2023.

A queda nas denúncias e o aumento das mortes indicam que muitas mulheres não conseguem romper o ciclo de violência a tempo. Em todo o estado, 16.156 medidas protetivas foram concedidas no último ano — mas 2.283 delas foram desrespeitadas. Ou seja, em média, seis medidas são ignoradas por dia.

Sistema ainda falha

Mesmo com tornozeleira, com provas e petições, Letícia continua exposta à presença invasiva do agressor. O processo judicial revela um retrato conhecido por muitas mulheres: o da sensação de que a Justiça “vê”, mas não age com a urgência necessária.

Henrique segue em liberdade, vigiado eletronicamente, mas ainda presente — nos presentes, nas palavras doces, nos olhares à distância. A reavaliação do pedido de prisão segue em curso.

Se você ou alguém próximo sofre violência doméstica, procure ajuda:

  • Polícia: 190

  • Central de Atendimento à Mulher: 180 (24h)

  • WhatsApp: (61) 9610-0180

  • Polícia Civil MS: www.pc.ms.gov.br

  • Casa da Mulher Brasileira: Rua Brasília, s/n, Jardim Imá — (67) 3304-9400

  • Defensoria Pública de MS: www.defensoria.ms.def.br — (67) 3318-5600

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