O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) deu início às ações de dragagem no chamado Tramo Norte do Rio Paraguai, trecho considerado o “menos movimentado” da hidrovia. A intervenção ocorre entre a Cidade Branca, em Corumbá (MS), e o município de Cáceres (MT), com o objetivo de melhorar as condições de navegabilidade por meio da redistribuição de sedimentos.
Segundo o Dnit, a campanha de dragagem conta com investimento aproximado de R$ 12 milhões, oriundos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC). A expectativa é que cerca de um milhão de metros cúbicos de material sedimentar sejam “espalhados” em pontos mais profundos do leito do rio.
Pontos críticos concentram os trabalhos
Em nota oficial, o Departamento informou que os serviços estão concentrados em 25 trechos considerados críticos para a navegação. A medida, de acordo com o órgão, busca garantir maior segurança ao tráfego de embarcações ao longo do corredor hidroviário.
O primeiro local a receber a intervenção foi o passo Descavaldinho, situado a aproximadamente 110 quilômetros de Cáceres. Atualmente, os trabalhos avançam no passo Papagaio, apontado como prioridade pelo Dnit.
Outros pontos que ainda devem passar pelo processo de dragagem incluem: Ponte, Inharosa, Passagem Velha, Ilha Portobrás, Jacobina, Furado do Totico, Simão Nunes, Jauru, Cambará, Pote, Tucum, Ilha do Tucum, Soldado, Barranco Vermelho, Ilha Bar. Vermelho, Beiçudo, Baiazinha, Corixão, Baía das Éguas, Morrinho, Morro Pelado, Presidente e Paratudal.
Diferenças entre os tramos Norte e Sul
Embora o Rio Paraguai seja um eixo estratégico para o escoamento de cargas, o Tramo Norte possui características distintas do Tramo Sul, trecho de cerca de 600 quilômetros entre Corumbá e a foz do rio Apa, na fronteira com o Paraguai, tradicionalmente mais navegável.
Em julho de 2024, durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Corumbá, o presidente do Ibama, Rodrigo Antonio de Agostinho Mendonça, chegou a autorizar o início imediato da dragagem no rio, sob o argumento de que as intervenções no Tramo Sul se enquadrariam como manutenção de calado, dispensando estudos aprofundados de impacto ambiental.
Poucas semanas depois, porém, o Ibama recuou da decisão, em meio a críticas e à divulgação de uma carta assinada por mais de 40 cientistas e pesquisadores, passando a exigir estudos ambientais que, até o momento, não foram concluídos.
Preocupações ambientais e reação de especialistas
No segundo semestre de 2024, o próprio Ibama chegou a barrar intervenções inclusive no Tramo Sul. Posteriormente, após consulta a especialistas, foi descartada a dragagem de aprofundamento no Tramo Norte do Rio Paraguai.
Em carta aberta divulgada no fim de agosto daquele ano, pesquisadores alertaram para riscos ambientais associados às dragagens, especialmente no trecho conhecido como “coração do Pantanal”, que abrange áreas protegidas como a Estação Ecológica Taiamã e o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense.
“Nossa preocupação, como especialistas em climatologia, hidrologia, geomorfologia e ecologia da região, se dá pelo fato de 2024 se apresentar como um ano de seca excepcional, nunca antes observado, e os impactos das dragagens, mesmo que apenas as de manutenção, previstas para o canal natural do rio Paraguai se tornarem imprevisíveis.”
O documento também menciona que estão previstas dragagens financiadas pelo Novo PAC tanto no Tramo Norte, com cerca de 700 quilômetros de extensão e 27 pontos críticos, quanto no Tramo Sul, com aproximadamente 1.000 quilômetros e previsão de até 30 pontos de intervenção.
Navegação e crescimento do transporte de cargas
Na ocasião, ficou estabelecido que o trecho de cerca de 680 quilômetros entre Cáceres e Corumbá seguiria restrito à navegação de embarcações de pequeno e médio porte. Já especialistas apontaram que a dragagem no Tramo Sul gera menos preocupação por se tratar de uma região historicamente navegável.
Mesmo sem as intervenções, dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) indicam crescimento expressivo no transporte de cargas pela hidrovia. No primeiro quadrimestre de 2025, os comboios de barcaças transportaram 2,054 milhões de toneladas de minério, média de 513,5 mil toneladas por mês — o maior volume já registrado para o período.
Até novembro do ano passado, ainda segundo a Antaq, a movimentação total na hidrovia do Rio Paraguai alcançou 7,6 milhões de toneladas, representando aumento de 173% em comparação com 2024.









